Porque sou reformado

14 09 2011

Rousas John Rushdoony

Ao longo dos anos, tenho sido frequentemente questionado o que me fez ser um calvinista, e agora a equipa da Chalcedon pediu que eu escrevesse uma resposta a essa pergunta. Em parte, respondi essa pergunta no apêndice ao meu livro By What Standard? há muitos anos. Basicamente, a resposta é essa: eu sou um calvinista porque Deus me fez assim em sua misericórdia e poder predestinador.

Assim, num sentido, nasci um calvinista. E eu fui batizado como uma criança do pacto. Minha herança arménia reforçou esse fato. Desde os meus primeiros anos, minhas memórias eram da chegada de amigos e parentes vindos do velho país. Várias reuniões com eles seguiam-se, à medida que outros se encontravam com eles para perguntar sobre os seus amados. Alguns seriam informados que seus amados foram vistos flutuando mortos num rio, ou presos por forças turcas e curdas. Isso e mais me disse que este mundo é uma batalha entre duas forças. Fomos ordenados à vitória, nossa Fé nos assegura, mas existe um preço.

A Bíblia nesse contexto era um livro militar, as ordens do nosso Rei para nós, o seu povo. Tão logo pude ler, li a Bíblia continuamente. Não me ocorreu duvidar de algo que ela dissesse. Não entendia tudo o que lia, mas entendia o suficiente para saber que a palavra do Rei deve ser crida e obedecida.

Anos mais tarde, como um estudante graduado, fui questionado por outro se eu realmente tomava os Símbolos de Westminster literalmente, de forma que li os mesmos novamente. Isso me fez mais ciente do que é um crente Reformado, e mais clara em minha compreensão a linha de divisão. No momento, sem dúvida, muito do que se passava por Fé Reformada ou Calvinismo era vago e cheio de concessões. Muito dele era simplesmente um fundamentalismo mais “dignificado”. Aqui é onde o dr. Cornelius Van Til foi tão importante. Ele esclareceu, restaurou e desenvolveu a Fé Reformada.

Ele arrumou e modelou minha fé e direção. Não posso exagerar sua influência, nem a força que ele me deu em meu desenvolvimento e direção. Foi o Senhor quem fez de mim um Reformado, em sua graça e misericórdia soberana, em seu poder e graça predestinador. Na juventude, seu poder direcionador deixou claro pra mim que um crente é um agente, e assim ganhei uma vocação.

Ser um crente Reformado é muito fácil: Você vai com o fluxo da história, vai com Deus contra o homem. Ser um incrédulo é o que é difícil, dolorosamente difícil. Conheço incrédulos bem o suficiente para saber quão verdade isso é. A vida então não tem significado, e somos esvaziados de qualquer verdade ou propósito. Não existe nenhuma vitória na história, e a vida é destituída de propósito.

A Fé Reformada me diz que não existem fatos sem significado, nenhuma factualidade bruta, para usar o termo de Van Til, na criação de Deus. Eu vivo num cosmos de significado universal e bendito. É verdade que ele é no presente um campo de batalha entre dois poderes diferentes, mas a vitória do nosso Senhor está assegurada. Meu lugar nessa batalha e nessa vitória é tudo pela graça – um privilégio. Isso tem me trazido a minha porção de problemas, mas minha vida tem sido uma riqueza quando comparada a de muitos parentes e ancestrais que morreram pela Fé.

A Chalcedon foi fundada para promover nossa vitória em Cristo. Surpreende-me que teólogos e pastores proeminentes vejam na verdade minha fé nessa plenitude da vitória como errada. Tenho pena da falta de fé deles, e oro para que mudem.

Fonte: Faith for All of Life, Fevereiro 1999

Tradução: Felipe Sabino in http://www.monergismo.com





Abastecendo a Reforma

14 09 2011
R.C. Sproul

Eu fico sempre intrigado quando vejo cartazes de igrejas a anunciar um avivamento que está próximo. Eles dão as horas e as datas em que a igreja será envolvida num avivamento. Mas eu me pergunto, como é que alguém pode  agendar um avivamento? Avivamentos verdadeiros são provocadas pela obra soberana de Deus através da agitação do Seu Espírito Santo no coração das pessoas. Eles acontecem quando o Espírito Santo vem para o vale de ossos secos (Ez 37) e exerce o seu poder para trazer nova vida, uma revivificação da vida espiritual do povo de Deus.

Esse tipo de coisa não pode ser manipulado por qualquer programa de humanos.Historicamente, ninguém marcou a Reforma Protestante. O avivamento Galês não estava na agenda de ninguém, nem o grande avivamento americano inscrito na agenda de ninguém. Estes acontecimentos épicos na história da igreja resultaram da obra soberana de Deus, que fez seu poder levantar as igrejas que se tornaram praticamente moribundas.

Mas temos que entender a diferença entre reavivamento e reforma. Reavivamento, como a palavra sugere, significa uma renovação da vida. Quando o evangelismo é uma prioridade na igreja, tal esforço normalmente trará reavivamento. No entanto, esses reavivamentos da vida espiritual nem sempre resultam em reforma. Reforma indica mudança das formas de pensar da igreja e da sociedade. Reavivamentos transformam-se em reformas, quando o impacto do evangelho começa a mudar as estruturas da cultura. Reavivamento pode produzir uma multidão de novos cristãos, mas esses novos cristãos têm de crescer em maturidade antes de começar a ter um impacto significativo sobre a cultura circundante.

Reforma pode envolver uma mudança para melhor. Não devemos ser tão ingênuos a ponto de pensar que toda mudança são necessariamente boas. Às vezes, quando sentimos que estamos na crise, ou que o progresso tem sido ridículo, clamamos por mudança, esquecendo-nos por um momento que a mudança pode ser regressiva ao invés de progressiva. Se eu beber um frasco de veneno, ele vai me mudar, mas não para melhor. No entanto, a mudança é normalmente boa.

Em nossos dias, temos visto o surgimento do que tem sido chamado de “Novo Calvinismo”, que tende a se concentrar principalmente sobre os chamados cinco pontos do Calvinismo. Este movimento dentro da igreja tem atraído uma grande atenção, até mesmo na mídia secular.

No entanto, seria prudente não identificar o calvinismo exaustivamente com os cinco pontos. Em vez disso, os cinco pontos funcionam como um caminho ou uma ponte para toda a estrutura da teologia reformada. Charles Spurgeon argumentou que o Calvinismo é meramente um apelido para a teologia bíblica. Ele e muitos outros Titãs do passado compreenderam que a essência da teologia reformada não pode ser reduzida a esses cinco pontos particulares que surgiram há séculos na Holanda, em resposta à controvérsia com os arminianos, que se opuseram a cinco pontos específicos do sistema de doutrina encontrados no Calvinismo histórico. Para os propósitos deste artigo, pode ser útil para olhar tanto para o que a teologia reformada é e não é.

A teologia reformada não é um conjunto caótico de idéias desconexas. Pelo contrário, a teologia reformada é sistemática. A Bíblia, sendo a Palavra de Deus, reflete a coerência e a unidade do Deus cuja Palavra é. Para ter certeza, seria uma distorção forçar um sistema exterior de pensamento sobre a Escritura, fazendo com que a Escritura se conformasse a ela como se fosse algum tipo de leito de Procusto. Esse não é o objetivo da sã teologia sistemática. Pelo contrário, a teologia sistemática verdadeira busca entender o sistema de teologia que está contido no âmbito geral da Sagrada Escritura. Não impõe ideias sobre a Bíblia, ela escuta as idéias que são proclamados pela Bíblia e entende-as de forma coerente.

A teologia reformada não é antropocêntrica. Isto é, a teologia reformada não é centrada em seres humanos. O ponto central da teologia reformada é Deus, e a doutrina de Deus permeia todo o pensamento reformado. Assim, a teologia reformada, por meio de afirmação, pode ser chamada teocêntrica. De fato, sua compreensão do caráter de Deus é  principal e determinante com relação ao entendimento de todas as outras doutrinas. Isto é, sua compreensão da salvação tem como factor de controlo – seu coração – numa particular compreensão do carácter soberano de Deus.

A teologia reformada não é anti-católica. Isto pode parecer estranho, já que a teologia reformada surgiu directamente do movimento protestante contra o ensino e a actividade do catolicismo romano. Mas o termo católico refere-se ao cristianismo católico, cuja essência pode ser encontrada nos credos ecuménicos dos primeiros mil anos da história da igreja, particularmente aqueles dos concílios da igreja primitiva, tais como o Concilio de Niceia no século IV e do Concilio da Calcedónia, no século V. Isto é, aqueles credos contêm artigos de fé comuns compartilhados por todas as denominações que abraçam o cristianismo ortodoxo, doutrinas como a Trindade e a expiação de Cristo. As doutrinas afirmada por todos os cristãos estão no centro e no coração do Calvinismo. O calvinismo não parte em busca de uma nova teologia e rejeita a base comum da teologia que toda a igreja partilha.

A teologia reformada não é católica romana em sua compreensão da justificação.Isto é simplesmente dizer que a teologia reformada é evangélica no sentido histórico da palavra. Neste sentido, a teologia reformada está forte e firme com Martinho Lutero e os reformadores magisteriais, em sua articulação da doutrina da justificação pela fé somente, bem como a doutrina da Sola Scriptura. Nenhuma dessas doutrinas é explicitamente declarada nos cinco pontos do calvinismo, ainda, em certo sentido, eles se tornam parte da base para as outras características da teologia reformada.

Tudo isto para dizer que a teologia reformada até agora transcende os apenas cinco pontos do calvinismo que é uma visão mundial. É pactual. É sacramental. Ela é empenhada em transformar a cultura. É subordinada à operação de Deus Espírito Santo, e tem uma moldura rica para a compreensão da totalidade do conselho de Deus revelado na Bíblia.

Por isso, não deve ficar sem dizer que o desenvolvimento mais importante, que trará a reforma não é simplesmente o ressurgimento do calvinismo. O que tem de acontecer é a renovação do entendimento do próprio evangelho. É quando o evangelho é claramente proclamada em toda a sua plenitude que Deus exerce Seu poder redentor para trazer renovação na Igreja e no mundo. É no evangelho e em nenhum outro lugar que Deus deu o Seu poder para a salvação.

Se queremos reforma, temos que começar com nós mesmos. Temos que começar a trazer o evangelho para fora das trevas, de modo que o lema de toda reforma se torna pós Tenebras lux – “. Depois de trevas, luz” Lutero declarou que cada geração deve declarar revigoradamente o evangelho do Novo Testamento. Ele também disse que sempre que o evangelho é clara e corajosamente proclamado, ele vai trazer conflito, e aqueles de nós que são inerentemente adversos ao conflito vão encontrar tentação de submergir o evangelho, diluir o evangelho, ou obscurecer o evangelho, a fim de evitar conflito. Nós, é claro, somos capazes de adicionar ofensa ao Evangelho por nossas próprias tentativas mal-educadas de proclamá-lo. Mas não há maneira de remover a ofensa que é inerente à mensagem do evangelho, porque é uma pedra de tropeço, um escândalo para um mundo caído. Ela trará, inevitavelmente, conflitos. Se queremos reforma, devemos estar preparados para suportar esse tipo de conflito para a glória de Deus.

Tradução: Fábio Silva

Fonte: http://www.ligonier.org/learn/articles/fueling-reformation/








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