Soberania de Deus ou liberdade humana 1/6

29 10 2010

O que o Novo Calvinismo tem a dizer sobre a doutrina da Soberania de Deus e da liberdade humana? Tem muito a dizer. Na verdade, o Novo Calvinismo precisa concordar inteiramente com essas doutrinas do modo como elas estão expostas na Confissão de Fé de Westminster e na Bíblia. O problema é que muitas pregações e estudos bíblicos sobre esse assunto que já tive a oportunidade de ouvir ou assistir por parte de calvinistas, em minha opinião não poderiam realmente ser consideradas “calvinistas”, mas algo como um “hiper-calvinismo”, no sentido de que exageraram a posição calvinista clássica exposta na Confissão de Fé de Westminster. Quase sempre quando os calvinistas expõem a doutrina da Soberania de Deus ou da Predestinação, têm a tendência de enfatizar apenas um dos aspectos defendidos pela Confissão de Westminster e pela própria Bíblia, ou seja, o fato de que Deus é soberano, mas de modo fraco e inconsistente tratam da questão da liberdade humana e da responsabilidade de cada pessoa por seus próprios atos. Nesse e nos próximos posts, pretendo tratar desse assunto, na busca por entender qual é a posição genuinamente calvinista e bíblica sobre a soberania de Deus e a liberdade humana.

Sempre imaginamos que Deus seja mais poderoso que o homem, mas nem sempre relacionamos isso com o dia-a-dia, nas decisões que precisam ser tomadas a cada momento. Será que alguém tem livre-arbítrio para tomar todas as decisões, ou será que de alguma maneira, todas as coisas que alguém decide já foram decididas antes por Deus? Até que ponto Deus é soberano em relação a tudo o que acontece nesse mundo, e até que ponto o homem é responsável por seus atos e também livre ao executá-los? Ou será que esses dois conceitos são mutuamente excludentes?

Os teólogos têm chamado essa tensão aparentemente contraditória entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana de “paradoxo”. Paradoxo pode ser definido como “a junção de dois pensamentos que parecem contradizer um ao outro”1 . J. I. Packer prefere chamar de “Antinômio”. Ele entende que paradoxo é apenas uma figura de linguagem, e que, portanto, não faz justiça à tensão bíblica entre soberania de Deus e responsabilidade do homem.2 De qualquer maneira, os termos não são tão importantes, desde que se entenda que há uma tensão exposta na Bíblia entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. São duas verdades, aparentemente contraditórias, ambas sustentadas pela Escritura, e que não são realmente contraditórias. Geralmente as pessoas vão optar por uma ou por outra. Quem acredita que tudo o que acontece nessa vida acontece exclusivamente porque o homem toma decisões, e é responsável por elas, não consegue imaginar que Deus tenha, em sua soberania, determinado todas as coisas que acontecem. Por outro lado, aqueles que pendem apenas para o lado da soberania de Deus, às vezes, fazem do homem algo como um mero robô, isento de responsabilidades pessoais. Muitas exposições supostamente calvinistas a respeito da predestinação e soberania de Deus, por exemplo, falham por se esquecer dessa tensão.

Como já dissemos, essas duas verdades não podem ser realmente contraditórias. Quando dois elementos se contradizem, apenas um pode ser verdadeiro, pois é impossível que haja duas verdades contraditórias. Neses caso, só podemos admitir que “pareça” contradição, como resultado da incapacidade de nossa mente em compreender o todo, mas ambos os elementos são verdadeiros. A Bíblia diz que Deus é aquele que “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11), e que ninguém jamais “resistiu à sua vontade” (Rm 9.19). Com relação aos homens, Paulo diz que Deus é o Oleiro que tem direito sobre a massa “para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro para a desonra” (Rm 9.21). Estas expressões demonstram claramente a soberania de Deus sobre tudo e sobre todos. Há um número incrivelmente extenso de passagens bíblicas que poderiam ser usadas em adição. Entretanto, da mesma forma, a Bíblia diz que o homem é absolutamente responsável por suas próprias atitudes. Jesus disse: “Porque o filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um segundo as suas obras” (Mt 16.27). Se a retribuição de Deus leva em conta as obras de cada um, então é porque todos têm profunda responsabilidade por tudo o que fazem. Tiago em uma de suas frases mais famosas sobre oração diz: “Nada tendes porque nada pedis, pedis e não recebeis porque pedis mal” (Tg 4.2-3). Tiago está dizendo que uma das razões pelas quais os crentes, muitas vezes, não têm nada é porque deixaram de pedir o que precisavam. A responsabilidade, neste caso, é totalmente deles. Vemos, portanto, que a Bíblia enfatiza tanto a soberania de Deus quanto a responsabilidade humana simultaneamente, e como a Bíblia não pode se contradizer, necessariamente esses dois conceitos precisam ser verdadeiros.

Em Filipenses 2.12-13 podemos ver esse conceito bem explícito. O texto diz: “Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”. A responsabilidade de “desenvolver” a salvação, uma idéia que certamente tem a ver com santificação, é atribuída aos crentes. São eles que devem desenvolver-se em sua fé, buscando o crescimento e demonstrando “temor e tremor”. Isso nos dá uma noção da seriedade do assunto chamado santificação. Mas é um fato que se o texto terminasse no verso 12, teríamos a idéia de que tudo depende exclusivamente do homem. Quando lemos o verso 13, entretanto, percebemos que as coisas não são bem assim. Paulo explica que Deus opera o “querer” e o “realizar” na vida das pessoas. Isso só pode ser entendido como o ato de colocar o desejo correto em nós, que é a condição de realizar o que é certo, somado à capacidade de realizá-lo. Nisto vemos os conceitos de soberania de Deus e responsabilidade humana conjuntamente, e conforme o texto deixa bem claro, um não elimina o outro. Devemos pensar em Deus como soberano, e entender que tudo o que acontece nesse mundo acontece como a vontade dele deseja, porém, igualmente entender que o homem tem a obrigação de agir corretamente. Essas duas verdades parecem opostas a princípio, mas, na verdade, se complementam. De nada adianta colocarmos a soberania de Deus e a responsabilidade do homem uma contra a outra, pois juntas elas demonstram harmonia e propósito, ainda que não entendamos muito bem esse relacionamento.

Há muitos outros textos que mostram esses dois conceitos unidos, como por exemplo, Lucas 22.22: “Porque o Filho do homem, na verdade, vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de quem ele está sendo traído!”. Esse texto diz que Jesus seria morto porque estava determinado por Deus que aquilo acontecesse, porém, o traidor, no caso Judas Iscariotes, pagaria por isso. Judas jamais poderia argumentar diante Deus que não tinha culpa na traição, dizendo que simplesmente fizera o que já estava decretado, ou que fora forçado pelas circunstâncias. Ele tinha responsabilidade pessoal no ato, pois quis fazer aquilo. O fato é que ninguém o obrigou, embora em última instância, tudo tenha ocorrido segundo a vontade de Deus.

 

Apesar dessas explicações, aqui não se pretende dizer que é possível entender perfeitamente o “paradoxo” ou “antinômio”. Não é uma questão de entender somente. Seria muito mais fácil excluir uma dessas verdades e tentar viver confortavelmente com a outra, como muitos têm feito. Isso, porém, não faria justiça ao ensino da Escritura. Mesmo que não entendamos perfeitamente esse assunto, precisamos manter os dois conceitos, crendo e afirmando tanto a soberania de Deus, quanto a responsabilidade do homem.

1. Antony Hoekema. Salvos Pela Graça, p. 11.

2. Ver J. I. Packer. A Evangelização e a Soberania de Deus, p. 16-18

POR: Pr. Leandro Lima in http://novocalvinismo.blogspot.com/

 


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