Soberania de Deus ou liberdade humana 2/6

30 10 2010

Uma pergunta que normalmente surge diante desse assunto é: E o livre-arbítrio do homem? Não diz a Bíblia que o homem tem livre-arbítrio? Por mais incrível que possa parecer para muitos, o fato é que a Bíblia não diz. A expressão livre-arbítrio não se encontra na Bíblia, e o conceito popular que se tem dele também não. Especialmente o conceito de que as pessoas tenham a capacidade de agir absolutamente livres e independentes de qualquer coisa. Ninguém é independente de Deus. Paulo disse aos filósofos gregos que em Deus “vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17.28). Se uma pessoa tivesse a capacidade de agir completamente livre da influência de Deus, então, ela teria que ser igual a Deus. Nem se quer somos independentes do meio em que vivemos. A sociedade influencia nossas vidas, mas isso não significa que sejamos menos responsáveis por nossas atitudes.

Uma outra definição de livre-arbítrio seria a capacidade de agir de forma contrária à própria natureza. Essa definição de livre-arbítrio é mais exata e pode ser encontrada, pois pelo menos Adão a teve. Adão foi o único homem que tinha a liberdade de agir de forma contrária a sua natureza. A natureza de Adão era boa, porém, Deus o capacitou com liberdade suficiente para escolher tanto o bem quanto o mal. Assim, fazendo uso de seu livre-arbítrio, ele escolheu o mal. Após isso, os homens não tiveram mais esse livre-arbítrio, pois se tornaram corrompidos pelo mal e sem condições de escolher o bem.

Após a queda todos os homens se tornaram corruptos, conforme Deus constata dos anti-diluvianos: “Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn 6.5). A Bíblia indica que a corrupção do pecado passou a todos os seres humanos: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12). Essa é a terrível constatação que a Bíblia faz de toda a humanidade: “Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3.10-12).

Os teólogos reformados chamam essa incapacidade humana em fazer o que é certo de “Depravação Total”. O homem após a queda se tornou depravado. Seu coração, na linguagem de Jeremias – “desesperadamente corrupto” (Jr 17.9) –, não tem mais condição alguma de escolher o que é certo. Todos os homens, por natureza, estão mortos em seus delitos e pecados (Ef 2.1). Livre-arbítrio não existe porque o homem não tem condições de escolher o que contraria sua natureza pecaminosa.

Apesar de o homem não possuir livre-arbítrio, ele tem alguma liberdade. O homem não é um robô, pois tem liberdade de agir. Em geral os teólogos reformados chamam essa liberdade humana de “livre-agência”, uma palavra que dá uma conotação diferente de livre-arbítrio. A livre-agência significa a liberdade que o homem tem de escolher certas coisas, mas dentro de um contexto. É possível que Deus, dentro de sua soberania, mantenha um nível de liberdade ao homem a fim de que tome certas atitudes e aja segundo princípios inerentes a ele. É aquilo que segundo a Confissão de Fé, Deus faz ao estabelecer por seu decreto a liberdade ou a contingência das causas secundárias. Se Jesus nos mandou pedir a fim de obtermos algo, buscar para achar e bater para que fosse aberto (Mt 7.7-8) é porque do contrário nada disso aconteceria. Se nos disse que deveríamos insistir em oração diante de Deus, como a viúva insistiu diante do juiz iníquo (Lc 18.1-7), é porque Deus em sua soberania determinou que a oração tivesse papel crucial na obtenção das bênçãos. O mesmo pode ser dito da fé. Deus nos deu a liberdade de utilizá-la, porém, ele a supervisiona de tal forma que não há riscos de que nossa liberdade frustre seu plano eterno. Somos livres, mas não independentes. Somos como peixes no mar, dentro dele temos certa liberdade, mas fora dele só resta a morte. Nosso mar é a soberania de Deus, ela proporciona nossa liberdade, porém, não é uma liberdade ilimitada. A diferença é que desse mar não podemos sair.

Ainda com relação à oração, muitos não entendem porque Deus nos manda orar se ele já sabe. E não devemos esquecer que foi o próprio Jesus quem disse que ele sabe (Mt 6.8). A oração faz parte importante do propósito divino. Ela não existe para “informar” Deus de alguma coisa, mas para nos conformarmos à sua vontade. Ela é de suprema importância, embora não tenha o poder de “mudar” a vontade de Deus. Aliás, se a oração tivesse o poder de mudar a vontade de Deus, será que seria conveniente utilizá-la? Se Deus estabeleceu algo, isso não significa que é o melhor? Afinal quem tem mais capacidade de planejamento, previsão e execução? Mas isso não significa que a oração não tenha “poder”. Ela é o instrumento que Deus designou para que alcancemos suas bençãos. Portanto, não utilizá-la é subestimar o método que o próprio Deus instituiu.

Não devemos esquecer que a liberdade humana capacita o homem a agir somente de acordo com sua natureza. O homem decaído não pode escolher algo bom porque não existe nada de bom nele. Ele pode escolher entre uma coisa pior e outra menos ruim, mas uma vez que sua natureza é caída, sempre escolherá coisas coerentes com ela. Não pode escolher o bem (da perspectiva divina) porque sua natureza é má (Mt 7.18). Para que o homem escolha o que é certo, Deus precisa mudar a natureza dele, implantando o princípio de vida espiritual que chamamos de regeneração, e que capacita o homem a fazer uma decisão por Cristo. Esse princípio de vida é implantado antes da conversão propriamente dita, e em geral vem acompanhado do ouvir a Palavra de Deus. Nesse ato, Deus capacita o homem a se converter e a responder com fé à pregação do Evangelho. O homem é de fato um agente livre, porém, ele sempre agirá de acordo com seus princípios, e em plena conformidade com as disposições e tendências de sua alma. Segundo Berkhof o homem não perdeu essa liberdade apesar da queda, mas o que perdeu foi “o poder racional de determinar o procedimento, rumo ao bem supremo, que esteja em harmonia com a constituição moral original de sua natureza”1 .

Resta agora pensar no convertido, terá ele livre-arbítrio? O convertido possui duas naturezas. A nova foi implantada por Jesus através da regeneração, porém a antiga ainda permanece, até porque o homem ainda está “na carne”. Como tem duas naturezas pode agir tanto segundo uma, quanto segundo a outra. Isso não é um livre-arbítrio propriamente dito. De fato, o convertido não precisa mais agir segundo a carne, como Gálatas 5.16 deixa bem claro: “Andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne”. O convertido não tem livre-arbítrio porque age concomitante a sua natureza. Quando faz o bem age segundo o Espírito que está nele, quando faz o mal age segundo a carne.

Todas as coisas acontecem de acordo com a Vontade de Deus, porém, precisamos tomar cuidado para não nos tornarmos fatalistas, pois o homem não é uma espécie de robô programado. Embora o homem não tenha livre-arbítrio, continua sendo um agente livre que faz escolhas segundo a sua vontade. É claro que, em última instância, o decreto de Deus garante que até mesmo essas decisões serão tomadas, de tal forma que seu plano maior não será frustrado, mas o fato é que o homem toma essas decisões conforme a sua vontade. Isaías profetizou que os caldeus invadiriam Judá, isso estava decretado por Deus, porém, os caldeus invadiram Judá porque quiseram fazer aquilo. Todas as atrocidades que aquele povo cometeu ao invadir Judá deram-se pelo espírito maligno daqueles homens. Embora estivesse no plano de Deus, a responsabilidade era pessoal. Deus somente usou Isaías para profetizar sobre aquilo porque de fato a invasão já estava decretada, pois Deus não poderia anunciar algo que corresse o risco de não acontecer. Entretanto, os caldeus não vieram em obediência a uma ordem direta de Deus, e sim, por causa de sua sede de conquistas (Ver Is 10.5-15). Os decretos da vontade soberana de Deus não contrariam a ação livre do homem. Na verdade, Deus decretou as ações livres dos homens, mas isso não torna os homens menos livres, nem menos responsáveis por seus atos. O decreto de Deus garante que uma determinada coisa acontecerá, mas não que Deus a realizará. Nada poderá frustrar o plano de Deus para este mundo, porém, cada criatura é absolutamente responsável por todas as suas decisões e atitudes. Isso é paradoxo. E nunca poderemos eliminá-lo, caso contrário nossa teologia tornará o ser humano um robô, ou Deus um ser limitado.

  1. Louis Berkhof. Teologia Sistemática, p. 230-231.

POR: Pr. Leandro Lima in http://novocalvinismo.blogspot.com/


Ações

Information

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: