Soberania de Deus ou liberdade humana 4/6

1 11 2010

Todas as ações humanas nesse mundo sofrem a influência daquilo que os teólogos têm chamado de Concorrência ou “Concursus”. “Concursus” se refere à junção de duas forças. Não significa necessariamente que sejam duas forças em pé de igualdade, mas, apenas que dois lados cooperam de alguma forma. Berkhof define concorrência ou “concursus” como “a cooperação do poder divino com todos os poderes subordinados, em harmonia com leis pré-estabelecidas de sua operação, fazendo-os agir, e agir precisamente como agem”1 . Nessa junção, quando dizemos que Deus e o homem agem conjuntamente, não estamos querendo dizer que é 50% para cada lado. Não dá para comparar a vontade divina com a vontade humana. Nesse ponto, precisamos ter em mente que estamos tratando com um assunto difícil, porém, devemos ser honestos com o ensino da Palavra de Deus, mesmo que tenhamos dificuldades em entendê-lo. Por isso, acima de tudo, devemos manter uma atitude reverente ao meditarmos nos textos que estão a seguir.

Vejamos novamente alguns exemplos bíblicos sobre concorrência ou concursus. Já estudamos em um post anterior sobre o texto de Lucas 22.22, onde o decreto de Deus e a traição de Judas acontecem paralelamente. Deus determinou, mas Judas foi o responsável por seu ato. O mesmo também sê vê no sermão de Pedro registrado em Atos 2, quando ele justificou que Jesus morreu “sendo entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus”, porém, os culpados pelo ato infame foram os homens, conforme Pedro inequivocamente aponta: “Vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos” (At 2.22-23). Note que Jesus foi entregue porque Deus havia determinado que isto acontecesse, no entanto, o povo era o verdadeiro culpado da morte de Jesus. O povo gritou para que ele fosse crucificado, preferindo a libertação de Barrabás (Mt 27.20-21). Esta mesma idéia repercute no capítulo 4 de Atos, quando a igreja ora ao Senhor: “Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram” (At 4.27-28). Como diz Boettner, “aqueles que crucificaram Cristo agiram em perfeita harmonia com a liberdade de suas próprias naturezas pecaminosas, e foram os únicos responsáveis por seu pecado”2 . Está claro que a culpa pela morte de Jesus foi dos homens, porém, tudo o que aconteceu, seguiu a vontade e a soberania de Deus, conforme seu plano pré-estabelecido. O que os homens fizeram foi errado, pecaminoso, e eles certamente pagarão por isso, porém, ao fazerem aquilo, em última instância, fizeram o que Deus havia determinado. Isto é concorrência ou “concursus”.

O “Concursus” e os Atos Bons 3

Nunca conseguiremos excluir Deus de qualquer coisa que fazemos em nossa vida. Precisamos nos lembrar que Paulo disse que “nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17.28). Jamais o homem age de forma independente de Deus, por isso, todas as ações boas, que os crentes praticam, são ações que Deus direcionou. Já vimos que segundo Filipenses 2.13 Deus opera tanto o querer quanto o realizar para que uma obra seja concretizada. O que isso quer dizer é que se eu faço alguma boa ação o mérito é do Senhor. Quem realizou a obra fui eu, mas ela só foi possível, porque o Senhor me capacitou. É o que Paulo fala sobre seu próprio trabalho apostólico: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1Co 15:10). Paulo tinha consciência de duas coisas: A graça de Deus e seu trabalho árduo. Mas acima de tudo sabia que tudo era pela graça. Ele tinha mais resultados do que os outros Apóstolos, e numa primeira instância poderia ser dito que foi porque ele trabalhou mais, mas ele reconhece que tudo foi por causa da graça de Deus.

O interessante é que isto pode ser visto também nas ações boas dos homens não-regenerados. Eles também fazem coisas boas, mas evidentemente que não no sentido de aceitáveis para salvação, porém boas, porque podem ter resultados benéficos para as pessoas. Podemos ver na Bíblia, que mesmo essas ações sofrem o “concursus”. Ciro, o rei da Pérsia, é um grande exemplo disso. Isaías escreve algo muito interessante a seu respeito: “Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita (…). Eu irei adiante de ti, endireitarei os caminhos tortuosos, quebrarei as portas de bronze e despedaçarei as trancas de ferro” (Is 45.1-2). Deus está dizendo que age na vida de Ciro para o ajudar. Em seguida expõem o motivo: “Por amor do meu servo Jacó e de Israel, meu escolhido, eu te chamei pelo teu nome e te pus o sobrenome, ainda que não me conheces” (Is 45.4). Deus usou o Imperador Ciro por amor de seu povo, ainda que Ciro não conhecesse ao Senhor. Ciro foi usado para que o povo pudesse voltar do cativeiro da Babilônia para sua própria terra. O imperador foi o responsável pela ordem que permitiu a volta do povo, e essa foi uma boa ação, mas, ele não fez isso pensando em agradar a Deus, na verdade, ele estava fazendo uma manobra política, porém, acima de tudo, estava cumprindo a vontade decretiva de Deus. Ciro agiu em conformidade com seus próprios interesses, mas acabou fazendo algo benéfico para o povo, e nisso ele foi dirigido por Deus, que agiu na vida de Ciro. Foi uma obra boa de um homem mau, uma obra realizada através do concursos.

Todas as boas ações desse mundo sofrem a ação do “concursus” de Deus. Tudo o que acontece de bom, acontece porque duas coisas participaram: A vontade do homem e a vontade de Deus. Em sua soberania, Deus não anula a vontade do homem, mas a vontade do homem em hipótese alguma inviabiliza a vontade de Deus.
1. Louis Berkhof. Teologia Sistemática, p. 170 .

2. Loraine Boettner. The Reformed Doctrine of Predestination, p. 247.

3. Uma exposição sobre o Concursus pode ser vista em H. C. Campos. O Ser de Deus e as Suas Obras – A Providência e a Sua Realização Histórica, p. 292-315.

POR: Pr. Leandro Lima in http://novocalvinismo.blogspot.com/


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