Soberania de Deus ou liberdade humana 5/6

2 11 2010

Não é difícil ver a atuação de Deus nas atitudes boas dos homens, afinal de contas Deus é bom e é a fonte de todo bem, mas e com relação as coisas más que acontecem? Uma das coisas mais difíceis nesta vida é conciliar a vontade soberana de Deus e os atos maus das pessoas. Uma forma de responder a questão é dizer simplesmente que Deus permite que as pessoas façam coisas más. Em parte esta resposta está certa, mas as atitudes más dos homens são permitidas por Deus embora firam sua vontade preceptiva. Mas como já estudamos, a vontade preceptiva é apenas um aspecto da vontade de Deus. Nunca poderemos nos esquecer que ele também tem uma vontade decretiva. A questão é: Como os atos maus dos homens se relacionam com os decretos de Deus?

Podemos ver na Bíblia alguns casos que mostram que mesmo os atos maus das pessoas não foram feitos independentes de Deus. O “concursus” pode ser visto nessas atitudes também. Em sua vontade decretiva, Deus determinou tudo o que deve acontecer, inclusive os atos maus dos homens, porém isso não faz de Deus o autor do pecado deles. Embora certas coisas ruins estejam decretadas, os homens as fazem de sua própria vontade, e a culpa é somente deles, porque desejaram fazê-las. Ninguém os obrigou.

A história de José do Egito é novamente útil para entendermos isso. José era o filho preferido de Jacó e seus irmãos tinham ciúmes dele. Num certo dia, aproveitaram uma ocasião e venderam-no a alguns mercadores que iam para o Egito. Aquele foi um ato muito mau da parte dos irmãos. José enfrentou muitos problemas por causa disso, vindo a tornar-se um escravo no Egito, e por fim, parou na prisão. Porém o Senhor agiu na vida de José que acabou chegando ao cargo mais importante do Egito logo após o Faraó. Com isso, anos mais tarde, José pôde ajudar sua família que passava dificuldades com a grande seca. Quando se encontrou novamente com seus irmãos, José disse-lhes: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida” (Gn 50.20). Tal foi o entendimento de José daquela situação que até mesmo declarou: “Não fostes vós que me enviastes para cá, e, sim, Deus, que me pôs por pai de Faraó, e senhor de toda a sua casa” (Gn 45.8). O ato de vender José foi uma ação má dos irmãos, e eles eram responsáveis por ela. Eles agiram segundo seus impulsos pecaminosos, porém, a Bíblia diz que, em última instância, Deus havia planejado tudo. Deus não foi o autor do pecado dos irmãos, mas agiu na vida deles, para que seu propósito maior se cumprisse. Eles fizeram o que desejavam, pecaram e se tornaram passíveis de punição, mas não deixaram de fazer o que Deus desejava. Embora esta não seja uma coisa fácil de entender, precisa ser aceita pela fé, pois Deus quis que os irmãos vendessem José, mas, o pecado foi somente deles, uma vez que ao agir daquela forma, não estavam obedecendo a uma ordem direta de Deus, e sim fazendo sua própria vontade pessoal.

Deus atua até mesmo nos atos maus dos próprios homens maus. Sempre imaginamos os irmãos de José como membros da Aliança, e por isso não os consideramos ímpios. Mas quando vemos o que a Bíblia fala sobre o caso de Nabucodonozor, o ímpio rei da Babilônia, percebemos que a soberania divina não tem limites. Nabocodonozor invadiu Judá e cometeu todo tipo de atrocidades, porém, a Bíblia diz que Deus é quem o trouxe e determinou que fizesse aquilo (Jr 25.9-11). Nabucodonozor agiu em conformidade com sua iniqüidade, ele queria saciar sua sede de conquistas, entretanto, Deus determinou que aquilo acontecesse, usando Babilônia, império de Nabucodonozor, segundo seus propósitos. Deus declarou a respeito de Babilônia: “Tu, Babilônia, eras meu martelo e minhas armas de guerra; por meio de ti, despedacei nações e destruí reis; por meio de ti, despedacei o cavalo e o seu cavaleiro; despedacei o carro e o seu cocheiro; por meio de ti, despedacei o homem e a mulher, despedacei o velho e o moço, despedacei o jovem e a virgem; por meio de ti, despedacei o pastor e o seu rebanho, despedacei o lavrador e a sua junta de bois, despedacei governadores e vice-reis” (Jr 51.20-23). Deus disse que ele fez toda aquela destruição, porém, Babilônia pagaria, pois havia agido conforme ela própria desejava: “Pagarei, ante os vossos próprios olhos, à Babilônia e a todos os moradores da Caldéia toda a maldade que fizeram em Sião, diz o Senhor” (Jr 51.24). Babilônia agiu conforme sua cobiça e deu vazão à sua própria maldade, entretanto, em última análise, agiu como Deus havia determinado. Ao mesmo tempo, Babilônia e seu imperador seriam castigados por Deus por causa disto.

Muitos outros casos podem ser considerados e demonstram o concursus nos atos maus de homens maus, como por exemplo, o caso de Jeroboão (1Rs 14.10; 15.27-30); de Roboão (1Rs 12.13-15; 22-24); do rei da Assíria (Is 10.5-15); de Absalão (2Sm 16.20-23; 12.11-12; 17.14) e de tantos outros casos que demonstram o mesmo que aconteceu com Nabucodonozor1 . Em todos eles, os homens ímpios agiram conforme seus desejos pecaminosos e são culpados por isto, porém, ao agir daquela forma, estavam fazendo o que a vontade decretiva de Deus havia determinado, pois estavam cumprindo propósitos divinos. Isso nos leva a entender que tudo o que acontece nesse mundo, acontece debaixo do olhar e do comando eficaz de Deus. Nada foge ao controle divino, porém, tudo o que o homem faz, faz de acordo com sua própria vontade. O “concursus” nos ajuda a entender a maneira como Deus age neste mundo e também como os homens agem. Há uma concorrência entre os dois, porém, não uma simples junção equivalente de forças, como se o homem fizesse metade e Deus o resto. O fato é que Deus age no homem, levando-o a fazer a Vontade Suprema, mas sem ferir a responsabilidade pessoal por cada ato seu, e sem ser o autor do pecado deles. Percebemos, portanto, que a Escritura ensina que Deus está no controle de tudo, e que até mesmo os pecados dos homens estão no decreto de Deus. Porém, como nota Hodge, “Esta providência universal de Deus é tudo o que a Bíblia ensina. Em parte alguma ela tenta informar-nos como Deus governa todas as coisas, ou como seu controle eficaz pode conciliar-se com a eficiência das causas secundárias”2 . Resta, portanto, aceitar pela fé que de fato é assim, ainda que não possamos conciliar tudo em nossas mentes. Precisamos aceitar porque esse é o ensino bíblico, e a Bíblia é a verdade.

1. Uma boa exposição de algumas dessas passagens está em Loraine Boettner. The Reformed Doctrine of Predestination, p. 243-248.

2. Charles Hodge. Teologia Sistemática, p. 439.

POR: Pr. Leandro Lima in http://novocalvinismo.blogspot.com/


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