Soberania de Deus ou liberdade humana 6/6

3 11 2010

A Bíblia sustenta igualmente a soberania de Deus e a liberdade humana. Como vimos nos posts anteriores, há textos que falam sobre os decretos de Deus, sobre a predestinação e sobre o absoluto controle que Deus exerce sobre o mundo e sobre suas criaturas por meio da providência, mas também há textos que falam que o ser humano é livre para fazer suas próprias escolhas, que não é coagido a nada, e que é o único responsável por suas atitudes. Quem lê só os primeiros textos, diz que seu Deus sabe todas as coisas, nunca é surpreendido por coisa alguma, nunca muda de opinião e mantém tudo sob seu mais estrito e absoluto controle, e, às vezes, por isso, essa pessoa assume uma concepção teológica que poderia ser chamada de hipercalvinismo. Quem lê apenas os últimos textos percebe que, às vezes, esse Deus parece se arrepender, mudar de opinião, agir de um modo que ele próprio havia dito que não agiria e parece um tanto quanto surpreendido com atitudes do ser humano. Então, essa pessoa advoga uma posição conhecida como arminianismo. Quem está com a razão? Qual teologia está mais correta? Qual é a melhor “descrição de Deus”? As duas se baseiam em textos bíblicos, mas apenas nos textos que sustentam sua própria visão. Ambas estão erradas justamente porque querem forçar um padrão que simplesmente não há no texto bíblico. Ambas querem eliminar as exceções e fixar um modo estrito de Deus agir. Isso é iluminismo, a filosofia que desejava enquadrar todas as coisas dentro de uma concepção estática da realidade e, justamente por isso, excluiu o próprio Cristianismo de “seu mundo”, o mundo da ciência.

O curioso é que a Bíblia narra que, ao mesmo tempo, Deus é soberano e o homem é livre e responsável, e faz isso num mesmo texto, e várias vezes, sem tentar harmonizar ou dar maiores explicações como já vimos anteriormente no primeiro post desta série (Veja Fp 2.12-13; Lc 22.22; At 2.22-23).

A Confissão de Fé de Westminster captou isso perfeitamente. Uma leitura atenta do texto da confissão mostra que algumas palavras frequentemente aparecem. São elas: “mas”, “porém”, “contudo”, “todavia”, etc. Essas palavras são conjunções adversativas. É preciso perguntar: Por que há tantas conjunções adversativas na Confissão de Fé? A resposta é que os teólogos puritanos de Westminster não quiseram eliminar o paradoxo. Veja um dos textos mais conhecidos da confissão:

“Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas” (III,1).

É impressionante como os teólogos de Westminster entenderam o paradoxo bíblico e não o quiseram eliminar. Isso prova que eles não foram racionalistas. Um racionalista nunca poderia sustentar as duas afirmações acima ligadas pela palavra “porém”. Um racionalista só poderia dizer que, ou Deus decretou tudo, ou o homem é livre. Mas os teólogos de Westminster não estavam presos aos padrões da lógica racionalista, eles estavam presos aos padrões das Escrituras. Justamente porque as Escrituras sustentam esse paradoxo de forma tão claro, eles também sustentaram. Mas muitos que se dizem calvinistas hoje não conseguem manter esses dois conceitos juntamente e, mesmo dizendo que confessam a CFW, ignoram esse elemento tão claro nela.

O paradoxo não diz respeito apenas às doutrinas da soberania de Deus e da responsabilidade humana. Deus é um ser paradoxal e isso pode ser visto em toda a Bíblia. Ele é transcendente e imanente. Tem propósitos eternos e ação temporal. É justo e amoroso. Quase sempre a sustentação dessas virtudes, principalmente como elas são descritas na Bíblia, só poderia ser considerada contraditória pela mente enciclopédica iluminista. O próprio conceito mais equilibrado sobre a inspiração atesta que a Bíblia é palavra de Deus e palavra do homem. O que é isso senão um grande paradoxo? Jesus Cristo é totalmente Deus e totalmente homem. É o logos eterno que se encarnou. É o imortal que morreu na cruz. Esse é o supremo paradoxo da Bíblia. Nenhuma descrição poderia ser mais incompreensível para uma mente puramente racional do que essa. O homem descrito pela Bíblia também é um ser paradoxal. Ele é mortal, mas tem uma alma imortal. É bom, mas é mau, pois é feito à imagem de Deus (que ainda permanece depois da queda), mas é totalmente depravado em virtude do pecado.

O que se pretende dizer com isso é que o conceito de verdade sustentado pela Bíblia nada tem a ver com o conceito proposicional do iluminismo. O conceito de verdade apresentado pelo Novo Testamento é diferente do conceito racionalista de algo que pode ser testado objetivamente por ferramentas cartesianas ou aristotélicas. Verdade, conforme o Novo Testamento, “não é algo abstrato nem puramente objetivo; é pessoal” (McGrath, 2007, pág. 149). A verdade chama as pessoas para um relacionamento, para um pacto. Conhecer a verdade, portanto, é muito mais do que assentir intelectualmente para algo, ou chegar à conclusão de que aquilo passou nos testes de averiguação, e sim experimentar no interior uma certeza confirmada pelo Espírito Santo que faz sentido tanto para o intelecto quanto para o coração. Grenz diz: “Não devemos deixar de reconhecer a importância fundamental do discurso racional, porém, nossa compreensão da fé não deve se limitar à abordagem proposicional que nada mais vê na fé cristã a não ser a correção da doutrina ou a verdade doutrinária” (1997, pág. 246).

Os teólogos reformados que negam o paradoxo porque acham que ele não se encaixa com os padrões da lógica precisam lembrar que essa não é a única coisa no cristianismo e na Bíblia que não se encaixa. O que dizer da encarnação do Deus-homem, do nascimento virginal, da expiação substitutiva, da ressurreição dos mortos, etc. Essas coisas não podem ser medidas pelos padrões da lógica humana, são supra-racionais, pois estão muito além da razão humana. Porém, não são irracionais, pois são a pura e simples verdade.

E a pura e simples verdade da Escritura é que precisamos manter os conceitos da Soberania de Deus e da Liberdade Humana juntos, sem abrir mão de um ou de outro, mas crendo que, mesmo que não se encaixem em nossa mente humana e limitada, se encaixam na mente do Deus todo-poderoso e todo-sábio, que não tem conselheiros, nem jamais pediu conselho a ninguém, que tem um entendimento que não se pode medir ou esquadrinhar. Podemos resumir tudo isso dizendo que: O Deus soberano em sua soberania decidiu que o homem seria livre (ainda que limitadamente) e perfeitamente responsável por seus atos.

POR: Pr. Leandro Lima in http://novocalvinismo.blogspot.com/


Ações

Information

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: