SUPONHAMOS QUE DEUS NÃO FOSSE SOBERANO

6 11 2010

SUPONHAMOS (conjecturando) que Deus não fosse soberano, que há nada decretasse, e que o homem tivesse o tal do livre arbítrio.
Essa história aconteceria mais ou menos assim:
Estando deus nos céus desfrutando de sua eternidade incomensurável, e, embora fosse Trino, sentiu no âmago de seu ser, em decorrência de uma irreprimida solidão a lhe consumir, a necessidade de se relacionar com alguém fora dele próprio. Assim, cogitou mentalmente (porque nada via a sua frente, que dependesse unicamente dele), na idéia e aventurou-se numa investida audaciosa de torná-la realidade. Assim começa a saga de uma série de episódios frustrados de deus com suas criaturas.
Sozinho, reclusado e contristado, isso tudo devido à solidão que desde toda a eternidade lhe acometera, deus propõe em seu coração criar seres os quais ele os chamaria de anjos, a fim de, enfim se relacionar de uma forma mais imprevisível, pois tal como ele era, assim seriam os anjos, livres de quaisquer ações externas, e livres dele próprio (deus), podendo assim lhe presentear com o inusitabilidade do inesperado.
Dentre os anjos que lhe devotavam piedade, houve alguns que ousaram deixar sua própria habitação. A Condescendência de deus é surrupiada por uma frustração inusitada. Não acreditava no infortúnio em que o destino e suas criaturas lhes reservavam. As suas criaturas insurgem contra os seus domínios, e amotinam-se contra sua “Soberania”, levando-o, forçosamente, a tomar uma decisão da qual não previa, precipitando seus anjos traidores de sua moradia, destituindo-os de sua beleza, transformando-os em famigerados demônios.
Por conta deste veredicto do qual deus jamais antevia, isso devido à liberdade dos anjos, o Eterno enluta-se demasiadamente, e, no recôndito de sua moradia, introspecta-se e se pergunta, em qual momento teria errado, e de contínuo, pensa em qual seria a melhor saída para retomar o caminho e continuá-lo de onde o mal havia o impedido de levar a termo o seu plano cogitado.
A tristeza agora estonteia-lhe o coração, e meio que sem surtida, é forçado a tentar, por mais vez, seguir caminhos cujos quais não têm plena certeza quanto aos seus desfechos, pois, diante da possibilidade de um novo relacionamento, análogo a natureza do primeiro, que enclausurava-o como refém de sua própria história, Ele incorria na triste possibilidade de ver-se num suposto fracasso outra vez. Mas não havia outro jeito, era um risco que estava disposto a correr, e de fato Ele correu. Assim, como possível solução ao problema instaurado nos seus desígnios primeiros, impedindo-o de seguir pelos caminhos que desenhara, deus cria o homem, e junto ao fôlego de vida que lhe concede, dá-lhe a plena e independente liberdade de “ser”.
Este que está à sua frente é o sinete de sua perfeição, a mais elevada de suas criaturas, esta que, no desenrolar dos próximos dias, reservar-lhe-ia uma relação de amor e ódio, alegrias e tristezas, fidelidade e traições o que desembocaria numa frenética e custosa tentativa de resolver problemas não concebidos previamente, marcados pela improbabilidade de sucesso sempre a circundar esse relacionamento, fruto de uma relação de dois agentes plenamente livres e imprevisíveis.
Assim, como nem tudo na vida é perfeito, com deus também não seria diferente. Em decorrência da liberdade recíproca de relação entre deus e o homem, tudo que aquele havia concebido para a sua relação com sua criatura parece vir por água a baixo, quando, pela primeira vez de muitas outras, o homem decide não obedecer aos seus estatutos, frustrando-lhe bem diante dos seus olhos os planos por meio dos quais acreditava deus, que poderia mudar a história do seu mundo caído e destruído a contragosto de sua vontade. Mais um acidente esbofeteia-lhe a face, e mais uma de suas criaturas rebela-se contra o seu “perfeito” plano arquitetado. O homem era perfeito, o jardim que deus lhe dera para sua vida e habitação parecia perfeito, o que, no entanto, não parecia ser tão perfeito eram os planos desse deus, que a essa altura parece a nossos olhos, mais sugestões de vitória, feitas por alguém que de fato não detêm o curso da história, diante de uma história que se rege pela plena liberdade do homem, fruto de uma ambiente convenientemente indeterminista.
deus é forçado a relevar a sua confiança dispensada ao homem que ele criara, por conta da sublevação de seu plano, agora frustrado. Assim, se pôs a pensar, e a arquitetar, por mais uma vez, no plano que se constituiria no melhor caminho a seguir, uma melhor alternativa, frente ao adverso, e isso seria levado a cabo, por meio da desconstrução do seu primeiro plano, que seria uma espécie de plano A, preterido por um novo plano, de natureza corretiva, que seria um espécie de plano B, no empenho de tentar recompor tal relação, destruída pelo homem que com seu ato livre de escolha, havia lhe confinado a um incontido sentimento de ira baralhada com tristeza; isso porque tudo dera errado, novamente.
deus agora pune o homem, imputa-lhe as consequencias de seu pecado, lança-o para fora de sua presença, e agora por sucessivas vezes no curso de toda história, se valerá de homem livres e agora inerentemente pecadores, que, volitivamente se prontificarão a mudar essa história marcada por tristezas que também são frutos de escolhas de homens livres. É sempre de crucial importância, visando o êxito dos primeiros planos, que o homem se revista da parte que lhe cabe nesses planos, do contrário, ver-ser-á deus, em um ciclo ininterrupto a recriar um ambiente propício, sempre com base nessa resposta livre do homem, que sempre é capaz de mudar, quando bate o pé teimoso, e resistir em colaborar com os planos do seu criador.
Alguns delinearão coincidentemente a vontade de deus, proporcionando assim, um quadro perfeito no afã de que deus oportunamente tente levar a conclusão de seus intentos, ainda abstratos. Dentre eles, destaque para Abrão, Isaque, Jacó, José, Moisés (esse foi incrível, pois aquilo que parecia mais trivial, ou seja, estar dentro de um cesto dentro do rio à deriva, coincidentemente, contribuiu para que deus usasse Moisés, poxa que sortudo!), Josué, Elias, Eliseu, etc.
Sintetizando a história, Davi também foi um desses pelos quais deus se vira presenteado pela história. Ele achou Davi, literalmente. Agradeceu não a si próprio, mas ao próprio Davi, pelo fato de que, na sua liberdade, tenha desejado agradar ao deus que não lhe chamou, mas que em decorrência do “sim” de Davi, com lágrimas nos olhos, disse um tremendo “SIM” para este Davi. Não é pra menos. Não foram e nem são muitas dessas oportunidades que se concretizam ante aos olhos de deus, convidando-o para uma batalha com grandes chances de vitória. Como conseqüência da pureza estritamente originada de Davi para com deus, o eterno se vê reescrevendo uma história onde Davi tornar-se-ia, a princípio, no seu principal protagonista. Decide que da descendência deste viria um que pudesse “resgatar” a humanidade de seus muitos pecados. Para tanto, deus criaria meios no transcurso da história, atinando seu senso de oportunidade, e por meio desses meios, procuraria se valer de homens bons aqui e ali, a fim de favorecer oportunamente seus anseios futuros, ainda incertos. Lembre-se, o homem precisa “fazer por onde”. Por mais que homens bons apareçam em meio ao caminho, o homem de fato precisa Ser redimido, ou ao menos, uma luz no fim do túnel precisa ser-lhe mostrada. Esse plano é antigo, e chegou a hora de concretizá-lo. Agora o plano é vir sobre a terra e apresentar aos homens uma possibilidade de salvação.
Resumindo a história, e omitindo o tempo dos reis que não contribuíram com quase nada em seus planos, levando-os a quase utopia, deus encontra uma mulher, que desde a tenra idade fora fiel, pelo seu próprio logro, esforço e mérito. Uma mulher judia, de nobre estirpe, limpa, pura e virgem. deus não acredita! Em meio a um mundo onde a paz e pureza é quimera, tal como uma bela flor a surgir em meio à aridez do deserto, assim viu deus a incólume santidade dessa mulher imergindo-se no mundo, irrepreensivelmente à parte de toda impureza e pecado. Uma mulher que, por fim, co-participaria nos desejos de deus, tirando-o do campo da impossibilidade, e materializando-o no mundo dos viventes. Por meio dela, deus viria habitar entre os homens, isso, se Maria estivesse disposta a participar.
Se valendo da produção da história particularmente humana, da qual deus não tem nenhuma responsabilidade e controle, o Eterno, se alegra por poder levar a frente um desejo antigo (não tão antigo), o de tentar restaurar a humanidade por meio de sua vinda a terra.
É certo que desde o Gênesis tal vinda fora predita, como a consecução dos planos de deus, por meio dos quais derrotaria o seu inimigo e o pecado. Porém, mesmo tendo em vista a conclusão desse “decreto”, a sua efetivação realização sempre esteve condicionada a voluntariedade humana, a corresponder a contento, munindo-se da parte que lhe foi, e sempre será foi pertinente. Mas enfim, deus se faz carne, e por meio das mãos dos homens maus, morre e ressuscita, facultando aos homens a salvação por meio da aceitação de seu sacrifício, aceitação essa plena e decisioriamente circunscrita a alçada humana. Assim, diante dessa forma de ver e conceber deus, o mundo a seu redor, seu desejo de salvar o homem, e a possibilidade de se consumar essa salvação, conclui-se que a salvação é uma daquelas questões onde se menos pode acreditar que de fato acontecerá. deus deseja que todos os homens sejam salvos, mas seu desejo não corresponde ao seu intento. Ele quer aquilo que não é seu. Sob essa compreensão, deus não só não verá todos os que Ele deseja se converterem, bem como pode ter a inóspita experiência de que nenhuns dos homens se converterão, pois mesmo que alguns o sirvam hoje, podem olvidá-lo um dia e abandoná-lo, posto que são total e plenamente livres. Mesmo que nos pareça remota essa possibilidade de pleno fracasso ao alvo pretendido, vendo sua esse prisma, isso é inteiramente possível de acontecer, ao menos em tese. Portanto, nada está decretado, os homens pode simplesmente pela força de sua decisão, não querer ter a cristo, incorrendo à deus de não ver no futuro, o fruto de seu trabalho e nele ficar satisfeito.
Conclusão: O mundo foi feito por deus, destruído pelo diabo, que por sua vez contaminou o homem, tornando-o num aliado, que luta vorazmente contra os planos de deus. O homem desde o princípio resiste em aliar-se aos desígnios de Deus, forçando-o a sempre remeter-se a um plano B ou ainda um plano C, para possibilitar a probabilidade de vencer na ocasião. A despeito dessa rebelião do homem, Deus em sua misericórdia, não salvou ninguém, antes morre a fim de simplesmente facultar a salvação a todos os que podem rejeitá-la. A salvação não é substitutiva e sim facultativa; ele não levou pecados, e sim pode levar pecados, caso o pecador queira que ele os leve; A salvação é universalmente oferecida, e não efetivamente realizada. Assim, deus e o diabo são forças proporcional ou igualmente fortes, pondo-se a lutar no ringue do mundo, onde o grande controlador da batalha, que detém nas mãos a capacidade nata de coordenar a história, manipulando-a por meio da ajuda de uma dos dois lutadores é o homem, bastando-lhe apenas, apoiar aquele que no momento quer que seja o vencedor, e isso temporariamente.
Falando sério, seria assim, se Deus não fosse Soberano e se o homem, ao lado de Deus, fosse um outro deus. Se o seu Deus tem no mínimo, uma característica desse embusteiro, descrito acima, utopicamente nesse texto, desculpe-me, esse deus não é o Eterno Deus das Escrituras. O Deus da Igreja não está vendido nessa história, não está chorando copiosamente nos céus, devido ao fracasso de seus primeiros decretos abortados ou pelo “leite derramado”. Ele controla todas as coisas, para que essas coisas contribuam, soberanamente, para os seus planos irredutíveis, insubstituíveis, e eternamente decretados.
“Porque o SENHOR dos Exércitos o determinou; quem o invalidará? E a sua mão está estendida; quem pois a fará voltar atrás?” (Is 14.27)

“Só tu és SENHOR; tu fizeste o céu, o céu dos céus, e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto neles há, e tu os guardas com vida a todos; e o exército dos céus te adora.”(Nm 9.6)

Soli Deo Gloria
Graça e Paz
Mizael Reis

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2 responses

20 07 2011
feitosa73

Ola Mizael,

Sou um estudante (livre) de teologia e gostaria de entender como compreender (se isto é possível) a concepção e compatibilidade dos atributos da soberania e onisciencia divida com o Amor, tendo em vista que Deus consciente de tudo que iria acontecer foi o criador do bem e do mal e concebeu a idéia de criar um mundo para o sofrimento.

Grato

feitosa.lima@gmail.com

gostaria de entender melhor a concepção do monergismo e promover um debate (sadio) com os defensores do sinergismo.

20 07 2011
Paulo Feitosa

Encaminhei uma questão de como podemos conciliar a visão de Deus soberando e onisciente com o Amor.

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