Desafios da Apologética Cristã na Pós-Modernidade

8 11 2010

Pós…o quê?…Não é tarefa fácil definir pós-modernismo. Até porque, há quem diga que só podemos definir um período como “pós” outro, tempos depois do próprio período considerado como “pós”. É a primeira vez em que tal designação é dada à época pelos contemporâneos da própria época. A época pós-moderna, portanto, é em si mesma uma época diferente. É atribuído ao sociólogo francès, Jean-François Lyotard, a autoria da nomenclatura “pós-modernismo”. Em seu “The Post Modern Condition: Report on Knowledge”, Lyotard legitimiza o nome que simboliza uma mudança cultural caracterizada pela incredulidade. A incredulidade pós moderna, pela definição sociológica, aponta para uma equidade das histórias que são contadas, das narrativas, o que James Sire equiparou à cosmovisão (“O Universo ao Lado”, Edt. Press, p. 214). Logo, pelo âmbito sociológico (aonde a terminologia foi cunhada), dirimem-se as implicações metafísicas, filosóficas, lógicas ou teológicas que da abrangência da mentalidade, pois a sociologia está mais interessada em definir padrões de comportamento, não havendo sociedades mais padrões epistemológicos mais ou menos corretas, mas diferentes. 

Associar metanarrativas a cosmovisões é um exercício intelectual válido, posto que a essência metafísica na pós modernidade dá lugar à filosofia da linguagem: Nós, nesta época, construímos o significado das coisas. A realidade não segue o fluxo do ser para conhecer, mas do conhecer para ser, ideal iniciado em Descartes (1596-1650). A filosofia racionalista, preâmbulo do que viria a ser a cerne do pensamento pós-moderno, preocupava-se como conhecemos a realidade, e portanto, como a classificamos. Para muitos, sua ´certeza a partir da dúvida´ inaugura o pensamento moderno e traz consigo uma série de mudanças que eclodem com o ceticismo de Hume e as Críticas de Kant (séc. XVIII). Posteriormente, surge o Idealismo alemão, cuja expressão máxima é Hegel (1770-1831) e a loucura de Nietzsche (1844-1900), para muitos, o primeiro grande expoente daquilo que podemos chamar de pós-moderno. De fato, em muitos aspectos, o pós-modernismo começa com Nietzsche.

Os ideais de supervalorização do homem que permearam o Idealismo, por exemplo, sucumbem diante da negativa da existência de Deus, de qualquer Absoluto moral e do conseqüente (e inevitável) pensamento que nós não passamos de um nada (niilismo).

A “esperança” para que não sucumbíssemos ao desespero melancólico propagado por Nietzsche é que construíssemos nossa realidade, e muitos acadêmicos voltaram-se a buscar significado em meio a isto tudo perguntando qual tinha sido o objetivo do homem através de sua história em perguntar. Isto que vos falo encontra-se no âmbito filosófico. Associe o que estava acontecendo em outros campos, na era moderna: A monarquia francesa era decapitada, e a igreja católica viu-se tendo de enfrentar uma realidade nova, iniciada na Reforma: a de que pessoas simples poderiam (e iriam) pensar, e questionar; A Bíblia era “desconstruída” pelos estudos de Astruc, e, na busca de um significado unificador, promoveu-se uma “colcha de retalhos” de símbolos, autores e interpretações, o que caiu bem à tendência européia de então de fugir do ortodoxo. O heterodoxo era mais bem aceito, afinal pilares seculares e até milenares estavam sendo reavaliados.

Revoluções

Ao fim do século XIX eclodem as idéias de Darwin e Freud – o primeiro “demitizando cientificamente a Bíblia” e colocando o homem como mais um no eterno processo natural de criação-evolução, enquanto o segundo introduz a idéia do ´Complexo de Édipo´, resumindo todos os anseios do homem ao sexo e negando a alma e qualquer sinal de divindade no homem.

Na melhor das hipóteses, portanto, o pós-moderno é sim um adendo do moderno. Uma ramificação natural de um caldeirão que está em ebulição desde o fim da Renascença. Estamos vivendo a continuidade de uma mescla de pensamentos contraditórios, como a própria época, e a análise que temos de fazer da mesma deve seguir os passos de Kuhn no seu “A Estrutura das Revoluções Científicas”: os fatores agregados e imperceptíveis aos olhos dos menos observadores, políticos, históricos, culturais, sócio-econômicos, não são meros coadjuvantes na história das revoluções, mas protagonistas. Logo, a tarefa do teólogo e do pastor é saber visualizar bem quais foram as tendências que culminaram nos processos atuais, que por sua vez constituem-se em novas tendências para futuros processos, ou as nomenclaturas históricas do amanhã.

Perguntas são feitas, a definição da equidade das metanarrativas (Cosmovisões) é advogada pelos sociólogos (não se esqueça: os que ´inventaram´ a nomenclatura), e qualquer tentativa de um retorno a padrões aonde ainda valha a pena refletirmos sobre temas como “Absoluto”, “Ética”, “Virtude”, “Espírito”, “Verdade”, “Bíblia” e “Deus” não somente deve consistir em um padrão epistemológico correto, como (para não fugir das “normas” da pós-modernidade) deve ser visual e efetivamente elegante. Em outras palavras, nossas respostas devem atrair para convencer.

Eis aqui, penso, o grande misto de desafio e oportunidade da Apologética Cristã. Em sua história, a Apologética tem sido pressuposicionalista. Esta forma de pensar foi adequada, penso eu, até Descartes. Não há nada mais belo e efetivo do que o bom e velho argumento ontológico, muito apreciado pelo próprio Descartes. Deus existia porque o próprio ato de pensarmos sobre Ele inferia a idéia de sua existência. Este é o pensamento reverberado de Anselmo de Cantuária, que propagava já no século XI que Deus é o ser de quem não se pode pensar algo maior, senão ele mesmo. Esta era a coroa da inferência a priori da existência de Deus. Portanto, não era errado pressupor a existência de Deus, a priori, pois quando pensamos em algo maior do que tudo o que há, temos a idéia intrínseca de que Deus é maior. Deus, portanto, deveria existir. Kant joga um balde de água fria sobre a menina dos olhos da filosofia cristã acerca da existência de Deus, argumento simplesmente que o simples fato de pensar sobre algo não quer dizer que aquele algo exista (Bertrand Russell, o grande logicista da primeira metade do século XX, aplicou tal idéia ao famoso “bule que ele imaginara estar rodeando o sol, como os demais planetas”. Claro que a idéia era absurda…mas, ninguém podia dizer que tal bule ´não existia´, de acordo com as premissas do argumento ontológico).

Perspectivas

A Apologética Cristã agora tinha um duplo desafio: não somente “crescer”, para não ser confundida com uma mera filosofia cristã, mas “saber crescer”. Questões, até então impossíveis, tornavam-se prementes, como as dúvidas sobre a autoria bíblica e, por conseguinte, sua autenticidade inspirativa; a arguição que pedia uma ´prova consistente´ do porquê tínhamos que crer que o Deus judaico-cristão era real e único e qual seria portanto a autoridade institucional da Igreja caso não se encontrasse uma ou mais respostas satisfatórias.

Bertrand Russell, considerado o pai da lógica moderna, desfecha outro golpe contra a filosofia cristã, atingindo outro pilar inabalável de evidência epistemológica da existência de Deus: o argumento cosmológico. Em sua lógica, Russel afirmava que do mesmo jeito que é impossível retrocedermos apenas como casualidades de causa e efeito numa história infinita de eventos contingentes, também seria impossível que houvesse uma divindade ´eterna´ – eternidade dá a entender ´sequência de eventos´, e a isto chamamos tempo. Se existe uma existência, esta tem de ter ´tempo´, logo, Deus não pode ser eterno, pois se for, caímos no mesmo problema de um universo (com seqüências de eventos contingentes) infinito. Em outras palavras, se sairmos do fogo, caímos na frigideira.

A solução para alguns grupos cristãos tem sido a boa e simples tática medieval para o controle dos questionadores: Os que tratam da fé, cuidem da fé… Os que tratam de ciência (leia-se, agora, sistemas epistemológicos válidos), cuidem da ciência. “Fé” virou algo obscuro, uma espécie de metafísica desvairada: um misto de alguma ciência, superstições e muita força de vontade para crer em algo. E algo contrasensual. Não apenas não era (e,observem, ainda não é) justificável acreditar em Deus, ou em absolutos, ou na Bíblia como Revelação, como não é estético, para os padrões de uma elegância epistemológica cada vez mais requerida. Ate mesmo o grande Einstein havia ficado para trás, na Física, por não admitir a incerteza dos localizações e velocidades de partículas sub-atômias. Incerteza esta que fazia desmoronar seu mundo deísta. “Deus não joga dados”, foi uma de suas expressões mais conhecidas. Formava-se um panorama sombrio à vista: Não somos nada mais do que partículas movidas por forças cegas, que obedecem a padrões altamente intricados mas extremamente voláteis, em “eternos” (e inexplicáveis) ciclos de ser e não ser. Deus e o que cremos seriam padrões de pensamento, “formas” que damos ao que vemos, ouvimos, sentimos e falamos. Como diria o célebre agnóstico Carl Sagan, na sua série “Cosmos”, em 1981: “Nós somos apenas uma maneira de o Cosmos refletir sobre si mesmo”.

Mas do que nunca urge uma proposta em forma de resposta apologética por parte da Igreja. Uma que utilize de ferramentais teóricos e eficazes de séculos passados, mas que não se restrinja àqueles. Uma resposta sob os parâmetros da pós-modernidade, mesmo que demonstre, filosófica e teologicamente o quão absurdos são tais parâmetros, como referenciais. Uma resposta que se preocupe em não ser contraditória, como é a pós-modernidade; que não seja excessivamente filosófica, mas que resgate o valor de um empreendimento que se dedique a aliar nosso desejo e certeza de que a Bíblia é a Revelação de Deus e contém as respostas adequadas às dúvidas mais profundas e sinceras dos corações dos homens, com uma crítica bem feita àquelas que viraram marcas registradas do pensamento atual: a “certeza” de que ninguém tem certeza de nada, a defesa de um pluralismo relativista que talvez seja ´a única esperança de paz´, paz esta que só será conquistada com a sublevação de pensamentos metafísicos (leia, inclusive, “Fé”), ecos obscuros de uma época em que o homem de algo criado por si. “Melhor” é viver baseado em “nada”. Esta é uma “certeza”… Ora, mas a primeira das marcas não é que ninguém tem certeza de nada???… É, começamos a vislumbrar uma saída para a contradição que se chama pós-modernismo.

Autor: Artur Eduardo
Fonte: [ Amigos do Puritanismo ]


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