Acerca do uso do véu

6 09 2011

I Co 11:2-16. Na sua primeira carta aos crentes de Corinto no capítulo 11, encontramos Paulo argumentando sobre o motivo pelo qual a mulher cristã deve cobrir a sua cabeça durante o culto público da igreja local. É bastante provável que, ao expor o porque de as irmãs cobrirem a cabeça, o apóstolo esteja respondendo a uma pergunta desta igreja em relação a este assunto (cf. 12:1 “quanto aos…”). O que levou Paulo tratar sobre este assunto deve ter sido o fato de algumas irmãs não estarem cobrindo a cabeça durante o culto da igreja em Corinto. Na cultura de alguns povos antigos, uma mulher aparecer em público com a cabeça descoberta era, como diríamos hoje, agir de forma desavergonhada. Ainda hoje em alguns países do oriente as mulheres não saem na rua sem estar com a cabeça devidamente coberta.

Quais seriam então as razões para uma mulher cristã cobrir a cabeça nas reuniões da igreja? Haveria um motivo justo para que ainda hoje isto seja observado? Já que na nossa cultura, no nosso país não é vergonhoso sair à rua com a cabeça descoberta seria necessário então o uso de cobertura por parte das irmãs no culto da igreja? Estas são perguntas que certamente tem sido feitas por muitos e que certamente são válidas.

Para que possamos entender melhor este assunto é bom que tenhamos em mente que ela fala de três símbolos importantes na igreja de Jesus Cristo: a cabeça, o pão e o vinho. O pão simboliza o corpo de Cristo que foi morto em nosso lugar, o vinho o seu sangue derramado a nosso favor para lavar nosso pecado e a cabeça simboliza uma hierarquia divinamente estabelecida.

Com isso em mente tentemos entender os seguintes motivos expostos por Paulo para justificar o velar da cabeça por parte da mulher cristã nos cultos da igreja local:

I. HÁ UMA HIERARQUIA DIVINAMENTE INSTITUÍDA.

Esta hierarquia é posta na seguinte ordem Deus -> Cristo -> homem -> mulher; onde cada um dos três primeiros é cabeça do seguinte. Nesta Passagem cabeça não deve ser entendida como um sinal de superioridade e sim como fonte de derivação de autoridade, de origem (cf. 8,9). A Bíblia é clara em dizer que Deus e Jesus Cristo são iguais (na verdade são um cf. Jo 518; Fp 2:6), mas como o Homem arquétipo, o segundo Adão, Jesus proveio de Deus. Como homem Jesus derivou-se de Deus. É nesse sentido que Deus é cabeça de Cristo. É Também nesse sentido que o homem é cabeça da mulher. Em Gênesis 2 temos a narrativa da criação onde uma certa prioridade é atribuída ao homem (cf. Ef 5:22ss.; Cl 3:18,19; I Tm 2:11ss.). Lemos ali que a mulher derivou-se do homem quando, da costela deste, Deus a formou.

É então com esta argumentação que Paulo inicia o assunto do uso de cobertura da cabeça no culto da igreja. Então, logo a seguir, continua a explicar qual deve ser a postura do homem e da mulher nas reuniões da igreja. A partir do versículo quatro (4-10) ele faz isso de forma mais direta. Veremos então o segundo motivo dado pelo Espírito Santo, através do apóstolo Paulo, para que a mulher cubra a cabeça no culto.

II. HÁ UMA QUESTÃO DE IMAGEM E DE GLÓRIA.

Parece que, para Paulo, a ordem das funções entre os sexos opostos, já determinada na criação, não foi abolida pela salvação em Cristo Jesus. Ele afirma que todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra (envergonha) a sua cabeça (cabeça espiritual = Cristo). No versículo sete (7) ele mostra a razão pela qual o homem não deve cobrir a cabeça ao afirmar que ele “é a imagem e a glória de Deus”.

Como o ponto culminante da criação, o homem, como nada mais pode fazê-lo, mostra a glória de Deus. Sendo assim, ao cobrir a sua cabeça, ele estaria desprezando o lugar de dignidade que lhe foi dado por Deus na ordem da criação. Por este motivo não é apropriado que a glória de Deus (o homem) se apresente com a cabeça coberta perante Ele na igreja.

Por outro lado, a mulher que ora ou profetiza sem usar cobertura desonra a sua cabeça (o homem e, por extensão, a Cristo). É então empregada uma linguagem bastante forte afirmando que é tão vergonhoso a mulher orar com a cabeça descoberta quanto seria ter a cabeleira rapada. Dizem alguns historiadores que, no contexto da cidade de Corinto, ter o cabelo tosquiado era identificar-se como uma das prostitutas cultuais da cidade. Paulo queria que as irmãs entendessem que era tão vergonhoso orar com a cabeça descoberta quanto seria ser identificada como uma prostituta de um culto pagão.

O motivo pelo qual a mulher deve cobrir a cabeça é por ser ela a glória do homem (pois ela foi feita para o homem – cf. v. 9). A argumentação que se segue então é: se a glória de Deus (o homem) não deve apresentar-se perante Ele, na igreja, com a cabeça coberta, a glória do homem (a mulher) não deve apresentar-se diante de Deus, na igreja, com a cabeça descoberta (cf. v. 10).

Já dissemos que, num certo sentido, na ordem da criação de Deus a mulher é subordinada ao homem. Pois bem, assim como na criação há uma ordem, também na igreja ela deve ser reconhecida e manifestada através da cobertura que a mulher usa na cabeça.

O uso de cobertura na cabeça indica submissão por parte da mulher a ordem estabelecida por Deus na criação. Portanto, assim como o homem por ser ponto culminante da criação e que não está subordinado a nenhuma outra criatura, não deve trazer sinal de subordinação sobre a cabeça, assim também, a mulher que foi feita do homem e por causa dele, deve trazer sobre sua cabeça um sinal de subordinação. Indicando assim que aceita de bom grado a ordem hierárquica estabelecida pelo Senhor Deus.

O versículo 15 diz que a glória da mulher é o seu cabelo. Assim como Deus tem a sua glória (o homem), assim como o homem tem a sua glória (a mulher), também a mulher tem a sua glória que é o seu cabelo. Talvez possamos entender com isso que assim como a glória do homem (a mulher) deve apresentar-se na igreja coberta, assim também, a gloria da mulher (o seu cabelo) deve, por sua vez apresentar-se coberta.

Passemos agora ao terceiro, e talvez mais profundo, motivo exposto pela Bíblia para a mulher cobrir sua cabeça.

III. HÁ UMA QUESTÃO ESPIRITUAL.

O versículo 10 diz: “Por causa disto deve a mulher ter autoridade (Gg. exousia) sobre a cabeça, por causa dos anjos” (NVI). A frase por causa disto (portanto), está se referindo ao que já foi argumentado nos versículos anteriores. Mas há aqui uma referência direta aos anjos como outro motivo pelo qual a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade.

Em uma tradução pessoal do texto grego do versículo 10 cheguei ao seguinte resultado: “Por esta razão e por causa dos anjos, a mulher deve ter sobre a cabeça um sinal de autoridade.” Fica, então, evidente que uma das causas pelas quais a mulher deve cobrir a cabeça são os anjos. A questão não é de escolha, de época, de gostoou cultura, pois os anjos são supraculturais e atemporais. Quando eles são postos como motivo para o uso de cobertura, a Palavra nos amarra, por assim dizer, e toda argumentação a respeito do assunto não deveria fugir a este aspecto.

Quase toda argumentação contra o uso de cobertura por parte das irmãs nos nossos dias parte do pressuposto que isto era um costume isolado da igreja em Corinto. Quase sempre levam o assunto para o lado cultural. Contudo como já vimos os anjos estão totalmente fora de qualquer uma destas considerações.

Surge a pergunta óbvia: que anjos são estes? O que a Bíblia quer dizer com isto?

Reconhecendo que este é um dos versículos mais obscuros da Palavra de Deus, tentemos analisá-lo à luz de outras passagens (a Bíblia é interprete de si mesma). Vejamos então as opções que temos.

A. Anjos Caídos.
Para justificar esta menção a anjos como o motivo pelo qual as mulheres devem cobrir a cabeça, alguns já tentaram ligar este versículo a Gênesis 6:1ss. Ali lemos que os filhos de Deus (que entendem ser anjos) tomaram para si mulheres de entre as filhas dos homens. Juntam isso a Judas 6, onde lemos que alguns anjos não guardaram o seu estado original (entendendo que isso significa que mantiveram relação sexual com mulheres) então chegam a conclusão que os anjos caídos sentem-se atraídos sexualmente pelas mulheres que estão no culto sem usar cobertura. Segundo eles, o uso de cobertura seria então uma proteção contra estes anjos caídos que desejam desencaminhar as mulheres.
Esta interpretação, porém, é forçosa e não tem o apoio claro da Palavra de Deus. Além disso, porque tais anjos só se sentiriam tentados pelas irmãs na hora dos cultos? Porque não se sentem atraídos pelas outras mulheres descrentes que também não usam cobertura no dia a dia. Esta conclusão, portanto, é descabida e muito improvável.

B. Anjos Bons.
A probabilidade é que a Bíblia esteja afirmando a presença de anjos não caídos conosco especialmente nos cultos. Entretanto, Não fica claro qual seria o papel dos anjos no culto da igreja. Seriam eles meros observadores? Estariam eles a observar como a igreja preserva a ordem natural estabelecida por Deus na criação? Tentemos entender isso.
Em Apocalipse 8:3 vemos que um anjo está colocando diante de Deus as orações dos santos. Em Hebreus 1:14 vemos que a função dos anjos é servir aos salvos. Então já conhecemos algumas das funções dos anjos.
Contudo, mais significante ainda é o que lemos em Efésios 3:10 que diz: “para que pela igreja a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida agora dos principados e potestades nos lugares celestiais.” Então ficamos sabendo que, de certa forma, a Igreja é usada para manifestar aos anjos a sabedoria de Deus. Ela, a igreja, está a ensinar aos anjos.
Estou ciente que não devemos nos basear em letras de hinários para estabelecer doutrinas. Contudo, citarei uma estrofe do hino 501 do hinário Hinos e Cânticos para mostrar que o irmão Richard Holden (que teve grande influência no inicio do movimento dos Irmãos no Brasil), ao que parece, também tinha este entendimento. Vejamos a letra do seu poema:
Aba! Aqui nós te adoramos,
Muito alegres em saber
Que por nós, que em Cristo estamos,
Vão teus anjos conhecer
Teu saber maravilhoso,
Tua graça, Teu amor,
E com mais intenso gozo,
Te adorar com novo ardor.

Entendo que quando a igreja local se reúne seguindo os princípios estabelecidos por Deus, os anjos podem ver que a ordem hierárquica estabelecida por Ele está sendo respeitada. Creio ser isso uma lição tanto a uma quanto à outra classe de anjos. Aos anjos caídos que quebraram esta hierarquia ao se rebelarem ao tentarem tirar Deus do seu trono e aos anjos bons que ainda a respeitam. Neste sentido a igreja deve procurar ser uma “escola” para os anjos. Talvez esta seja uma das áreas nas quais os anjos serão julgados pelos santos (cf. I Co 6:3). Isto é por demais profundo para ser tratado com descaso pela igreja de Cristo. No mínimo os líderes deveriam estudar profundamente este assunto antes de emitir sua opinião sobre ele.

IV. CONCLUSÃO.

Depois de praticamente esgotar sua argumentação a favor do uso de cobertura por parte das mulheres, Paulo lança uma pergunta de crucial importância: Julguem entre vocês mesmos: é apropriado a uma mulher orar a Deus com a cabeça descoberta? (v. 13). Na verdade ele está perguntado: “depois de tudo que lhes foi apresentado, vocês ainda entendem que uma mulher deve orar na igreja com a cabeça descoberta?” A resposta que ele espera ouvir é, com toda a certeza, não! A Bíblia diz: “Toda mulher, porém, que ora, ou profetiza, com a cabeça sem véu (descoberta), desonra a sua própria cabeça, porque é como se a tivesse rapada” (I Co 11:5 -parêntese meu).

Outra observação importante a fazer é quanto ao versículo 15. A Bíblia na Edição Revista e Corrigida, diz que o cabelo foi dado a mulher em lugar de véu. Isto tem levado muitos a entender que a mulher que tem o cabelo comprido está dispensada de cobrir a cabeça. Mas na verdade o texto em grego diz que o cabelo lhe foi dado em lugar de manto, mantilha. A palavra usada aqui é “peribolaiou” em contraste com “katalupto” que é usada nos versículos anteriores e que é traduzida como véu.

Aliás em todo o texto grego do capítulo 11 a palavra véu não aparece uma vez sequer. Katalupto foi traduzida por véu porque normalmente o pano que cobre a cabeça das mulheres no oriente é conhecida por nós como véu. Esta tradução pode nos ajudar a entender melhor, mas também pode trazer confusão como vimos acima. Portanto, neste texto fica melhor traduzir katalupto com o seu significado primário que é cobrir, cobertura.

Iniciamos este estudo com algumas perguntas entre as quais uma questionava sobre a validade ou não do uso de cobertura por parte das mulheres na igreja atual. Espero que tenhamos chegado a conclusão que, desde que seja feito com entendimento, permanece para as irmãs a validade do uso de cobertura nos cultos da igreja de todos os tempos.

Contudo devemos evitar os exageros de querer obrigar as irmãs a usarem o véu (uso a palavra véu por ser a que melhor expressa o uso de cobertura na nossa língua) deste ou daquele tamanho, deste ou daquele tecido, deste ou daquele formato, desta ou daquela cor e por aí vai… infelizmente. A Bíblia não especifica nada destas coisas e quando o fazemos estamos pondo na boca do Senhor Deus aquilo que Ele nunca disse. Fazer isto traz prejuízo e é pecado. O próprio apóstolo Paulo (que foi diretamente inspirado por Deus ao escrever esta carta), após mostrar o que ele cria ser da vontade de Deus para a igreja, deixa, por assim dizer, a igreja em liberdade para que julgassem entre eles se era ou não apropriado usar o véu (v. 13). Mesmo esperando uma resposta positiva em relação ao uso do véu, esta foi a sua atitude. Paulo não era um ditador. Creio que o seu raciocínio era o de que só se deve prestar a Deus um culto de coração voluntário e não por imposição de ninguém. Ele usou toda a argumentação bíblica, mas deixou ao Espírito Santo o papel de convencer a igreja em Corinto destas verdades.

Quanto a idade ou quando uma irmã deve começar a usar o véu a Bíblia não especifica. Contudo, apesar da nossa tradição rezar que só depois de batizada uma irmã está autorizada a usar o véu, entendo que a partir do momento no qual ela aceita Cristo como seu Salvador pessoal ela pode e deve usar o véu. Quanto a isso a Palavra de Deus não faz nenhuma restrição.

Creio não ter nenhum valor espiritual uma pessoa que use o véu sem entendimento nenhum do seu significado ou usar somente por tradição. Não adianta, por exemplo, usar o símbolo da submissão, da hierarquia estabelecida por Deus, se em casa não se é submissa ao marido. Isto se parece mais com uma tradição supersticiosa do que com um culto racional, inteligente, com entendimento (cf. Rm 12:1).

Por último é bom lembrar que, longe de desmerecer a mulher, o véu lhe confere um lugar de dignidade na assembléia onde se adora ao Deus Eterno. Lugar este que, ainda hoje, é negado à mulher judia, e a mulher islâmica (maometana) no seu culto. Este símbolo lhe assegura um elevado lugar na igreja, ainda que deixe claro que não é o lugar do homem.

Paulo encerra este assunto afirmando que se alguém quer ficar criando polemica a esse respeito, este não era o seu costume e nem o das demais igrejas co-irmãs em Cristo. Isto sugere que o uso do véu era praticado também pelas igrejas neotestamentárias das outras cidades. Sendo que a polêmica só existiu na complicada igreja em Corinto.

A Deus Toda a Glória.

Por Jabesmar Aguiar Guimarães


Ações

Information

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: