Abandonem a Reforma e Estareis Abandonando o Evangelho

31 10 2011

“Então quando o diabo atirar os teus pecados à tua cara e declarar que mereces a morte e o inferno, diz-lhe isto: “Eu admito que mereço a morte e o inferno, e depois? Eu conheço um que sofreu e fez a satisfação no meu lugar. O seu nome é Jesus Cristo, Filho de Deus, e aonde ele estiver ali também eu estarei”

Martinho Lutero

Quatro cabelos da cabeça de Maria

Ali estavam elas. Reliquias. Uma data delas. Havia um pedaço de tecido da manta do bebé Jesus, treze pedaços do seu berço, uma palha da manjedoura, um pedaço de ouro de um Homem Sábio, três pedaços de mirra,  um pedaço de pão da ultima ceia, um espinho da coroa que Jesus utilizara na crucifixão, e, como ex-libris, a genuina pedra em que Jesus estava quando ascendeu para a destra do Pai. E em boa tradição católica, a abençoada Maria não havia sido esquecida. Ali estavam três pedaços de tecido da sua tunica, quatro do seu cinto, quatro cabelos da sua cabeça, e melhor ainda, sete pedaços do seu véu que havia sido tingido com o sangue de Cristo. Estas reliquias e inumeraveis outras (19.000 ossos dos santos!), estavam prontas para serem vistas por peregrinos piedosos. Esta colecção era o orgulho de Frederico “o Sábio”, eleitor da Saxonia, principe de Martin Luther. E elas estavam depositadas na igreja do castelo e Wittenberg, preparadas e prontas para exposição no Dia de Todos os Santos, 1 de Novembro de 1517.

Mas no meio de esta fanfarra toda estava o ingrediente essencial, nomeadamente, a procura de indulgencias. A veneração das reliquias seria acompanhada por indulgencias reduzindo o tempo no purgatório em 1.902.202 anos e 270 dias. Uma indulgencia, a total ou parcial remissão da punição pelos pecados, era tirada do Erário do Mérito, que era acumulada não apenas pela meritória obra de Cristo, mas também pelo superabundante mérito dos santos.

 No Mesmo Momento Que a Moeda Ressoa No Fundo do Cofre

Precisando de fundos para construir a Basílica de S. Pedro, o Papa Leão X começou a vender indulgencias. Mas qualquer indulgencia não bastava. Ele precisava de uma indulgencia para a total remissão dos pecados, uma que fizesse o pecador regressar ao estado de inocência recebida no baptismo. Até os horrores de anos no purgatório seriam removidos. Nem mesmo um pecado contra a Majestade Divina valeria mais que a eficácia de uma destas indulgencias. Em suma, se tivesses dinheiro suficiente, arrependimento estava à venda.

Não existia ninguém tão experiente como o Dominicano Johann Tetzel para vender esta oportunidade que aparece uma vez na vida. Indo de cidade em cidade com toda a pompa Romana, Tetzel expunha o caminho da culpa com força: “Escutem as vozes dos vossos entes queridos mortos dizendo: ” Piedade, Piedade. Estamos em terrivel tormento do qual nos podes livrar por uma insignificancia…Vais nos deixar aqui nas chamas? Retardarás a nossa glória prometida?”” E depois vinha o famoso “jingle” de Tetzel: “no mesmo momento que a moeda ressoa no fundo do cofre, a alma sai do purgatório.” Com apenas um quarto de florim podias liberta o teu ente querido das chamas do purgatório para o paraíso.

100-5=95 Teses

Martin Luther estava farto. Um ano antes, Lutero pregara contra as indulgencias. Desta vez ele colocaria as suas objecções por escrito. Em 95 teses Luther expunha o abuso das indulgencias. Assim que terminou, estas teses foram afixadas na porta da igreja do castelo. O biografo de Luther, Roland Bainton sumariza as 95 teses para nós: “Havia três pontos principais: uma objecção ao objectivo declarado de ganhar dinheiro, uma negação dos poderes do Papa sobre o purgatório, e uma consideração sobre o estado do pecador”

Apesar do protesto, Luther estava apenas a tentar ser um bom católico, reformando a Igreja de este abuso. De facto, neste momento, nenhuma referencia é feita à Sola Fide, Sola Scriptura, outras doutrinas da Reforma que eventualmente surgiriam. Ainda assim, essa semente já estava plantada.

A Sinagoga de Satanás

E elas surgiram. Apesar das teses de Luther terem sido escritas em Latim para debate académico, outros as traduziram para o vernacular e espalharam-nas pela Alemanha. De repente, o protesto de Luther era o tema de discussão na cidade

Tetzel foi o primeiro a explodir, reclamando que Luther fosse queimado na estaca como herético. A seguir o Cardeal Cajetan em Outubro de 1518 no assembleia imperial de Augsburg, Luther foi interrogado durante  três dias e foi-lhe ordenado que se retratasse, mas Luther não cumpriu. Luther escreveu, o cardeal “não produziu uma silaba de Escritura” mas dependia  em pais da igreja escolásticos. Declarado herege por Cajetan, Luther regressou a casa temendo pela sua vida.

Mas o maior desafio viria em Junho de 1519 com o orador católico Johann Eck, a quem Luther chamava “aquela pequena besta sedenta de glória”. Eck trouxe a verdadeira questão para cima da mesa: quem tinha a autoridade final, A Palavra de Deus ou o papa? Para Eck, a Escritura recebia a sua autoridade do papa. Luther discordava fortemente e ao fazer isto foi rapidamente associado a outros hereges como Wycliffe e Jan Hus. Inicialmente Luther negou essa associação, mas numa pausa durante o debate ele apercebeu-se que Hus ensinara precisamente aquilo em que ele acreditava. Eck retornou a Roma para reportar os seus achados ao papa, e Luther saiu do debate ainda mais convencido que a Escritura, não o papa, era a única e autoridade. Adicionalmente, Luther apercebeu-se que se o papa era sempre a autoridade sobre a Escritura, reformar a partir do interior se tornaria impossivel. Como Michael Reeves explica: “A palavra do papa iria sempre trunfar a de Deus. Nesse caso, o reino do anticristo lá estava selado, e não era mais a igreja de Deus mas sim a Sinagoga de Satanás.”

Justificação Pela Fé Apenas

Mas não seria apenas o seu entendimento acerca da autoridade do papa que iria mudar. A sua perspectiva da salvação também iria ser revolucionada. Luther mais uma vez regressou ao livro de Romanos, especificamente ao cap 1 vers. 17, onde Paulo fala acerca da justiça de Deus, Luther escreve acerca do que se passou a seguir:

«Enquanto meditava dia e noite e examinava o sentido destas palavras – o justo viverá pela fé – comecei a compreender que a justiça de Deus significa aqui a justiça que Deus oferece e pela qual o justo vive, se tem fé. O sentido da frase é, pois, o seguinte: O Evangelho revela-nos a justiça de Deus, mas a justiça passiva, pela qual Deus, na sua misericórdia, nos justifica por intermédio da fé. (…) Senti-me imediatamente renascer e pareceu-me transpor as portas escancaradas do próprio Paraíso!»

De repente, o evangelho tornou-se em boas novas. Luther entendia a rectidão de Deus como Deus punindo os pecadores na sua justiça e ira vingativa. A justiça de Deus eram más noticias, condenando Lutero independentemente de quantas boas obras ele realizasse. Por isso Luther odiava Deus. No entanto, Luther apercebeu-se que a Justiça de Deus em Romanos 1:17 é revelada no evangelho, o justo viverá pela fé. A justiça de Deus não era para ser temida mas era um dom a ser recebido em Cristo pela fé, para que os pecadores, até os piores pecadores, fossem reputados como justos diante de Deus.

Além disso, a justiça que Deus exige não é algo que consigamos atingir, antes foi conquistada em Cristo para nós. Não necessitamos de justiça própria mas uma justiça alheia nos é imputada e creditada por Deus. Aqui está o que Luther apelidava de “alegre troca”. Cristo levou os nossos pecados enquanto recebemos a sua justiça. Como Paulo escreve  “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.”( 2Co 5:21). E novamente Paulo afirma em Filipenses 3:9 minha esperança é que “seja achado nele, não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus, pela fé;” Por isso, Luther agora sabia que que nós somos justificados não pelas nossas obras e méritos para pela graça apenas (sola gratia) por meio da fé apenas (sola fide),

Com esta descoberta, Luther começaria a escrever como um louco em 1520. Primeiro ele publicou “Aos nobres cristãos da nação alemã”, chamando ao debate a autoridade papal, tal como o direito exclusivo do papa de interpretar a escritura e convocar um concilio. Em segundo, Luther publicou “O cativeiro babilonico da igreja” onde ele argumentava que o dom de Deus é recebido pela fé e assim Roma estaria em erro ao declarar que a graça divina apenas vem da distribuição que o padre faz dos sacramentos (os quais Luther declarava serem apenas dois ao invés de sete). Em terceiro, Luther publicou “A liberdade de um cristão”, dedicado ao papa Leão X, onde positivamente afirmava a doce troca, nomeadamente, que os nossos pecados são dados a Cristo enquanto a justiça de Cristo nos é creditada.

Esta é a Minha Posição

Em 1520 o papa outorgou uma bula (decreto), chamando aos ensinamentos de Lutero um “virus venenoso”, exigindo que Luther se retratasse em 60 dias ou seria excomungado. Ao fim de 60 dias Luther queimou publicamente a bula papal, exclamando: “Porque confundiste a verdade de Deus, hoje o Senhor confunde-te a ti.  Para o fogo contigo!” Luther havia declarado guerra. O papa respondeu com uma segunda bula, excomungando Luther e os seus seguidores.

Normalmente, neste ponto, Luther seria entregue para ser executado, mas Frederico “o Sábio” exigiu uma audiência perante um tribunal germânico. Em 1521 foi chamado a Worms para uma audiência imperial diante de Carlos V, governante do Santo Império Romano. Em Worms, no dia 17 de Abril, 1521, foi dito a Luther que ele devia se retratar, após pensar nisso durante um dia, Luther retornou e disse:

Que se me convençam mediante testemunho das Escrituras e claros argumentos da razão, porque não acredito nem no Papa nem nos concílios já que está provado amiúde que estão errados, contradizendo-se a si mesmos.

Pelos textos da Sagrada Escritura que citei, estou submetido a minha consciência e unido à palavra de Deus. Por isto, não posso nem quero retratar-me de nada, porque fazer algo contra a consciência não é seguro nem saudável.

Não posso fazer outra coisa, esta é a minha posição. Que Deus me ajude! Amén

No dia seguinte o veredicto foi lido; o imperador determinou que Luther era realmente “um cismático obstinado e um herético declarado”. Na sua viagem para casa, Luther foi raptado por homens com espadas e arcos. Foi Luther morto? o pintor germanico Albrecht Durer escreveu no seu diário: “Oh Deus, se Luther está morto quem pregará o santo evangelho tão claramente para nós”. Mas Luther havia sido raptado por amigos, e não inimigos. Frederico o Sábio havia orquestrado a fuga de Luther para o castelo Wartburg. Mas as palavras de Duhrer demonstram que que nada mais nada menos que o evangelho estava em causa na posição de Luther perante o imperador, e este evangelho iria agora mudar (novamente) a Cristandade para sempre.

A Teologia Reformada é importante hoje em dia? 

(…)

Original:http://thegospelcoalition.org/blogs/tgc/2011/10/28/abandon-the-reformation-abandon-the-gospel/                                        Tradução:Fábio Silva


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